Mais do que altas habilidades, a superdotação é uma forma única de perceber e sentir o mundo. Conheça a história da advogada Adelita Carvalho e de sua família na luta pelo reconhecimento das mentes que pensam diferente
Recentemente, o humorista Whindersson Nunes e a atriz Fabiana Karla descobriram que são superdotados, reacendendo o debate sobre o tema. Longe do estereótipo do “gênio prodígio”, a superdotação vai muito além das altas habilidades: é uma forma singular de pensar, sentir e perceber o mundo, marcada por intensidade emocional, pensamento acelerado e desafios de adaptação.
Foi o que viveu a advogada Adelita Carvalho e seus três filhos. Depois de anos de sofrimento e diagnósticos equivocados, ela transformou sua jornada no Projeto Super Inclusão, que luta por acolhimento, reconhecimento e acolhimento das mentes que pensam diferente.
Desafios, descobertas e recomeço
Desde pequeno, Matheus Carvalho Camargo, filho mais velho de Adelita, mostrava uma curiosidade fora do comum. Montava engenhocas, desmontava brinquedos e fazia perguntas que os adultos custavam a responder. Mas na escola, tudo era diferente. “Ele dizia que a aula era chata, que nada fazia sentido. Eu via o sofrimento, mas não entendia o que havia por trás”, lembra Adelita.
Aos 13 anos, as crises de ansiedade aumentaram e se recusava a frequentar as aulas, até que passou mal e ficou um ano afastado da escola. Sem acolhimento, recebeu diagnósticos equivocados, de TDAH a depressão, além de medicações que o deixaram apático. “Foram os anos mais difíceis da minha vida”, conta a advogada. Foi só em 2020, por sugestão de uma psicóloga, que o Matheus foi avaliado e o resultado confirmou uma superdotação profunda.
A descoberta trouxe alívio e Matheus se reinventou: construiu drones, aprendeu programação e escreveu o livro “O Ápice da Inteligência – As percepções de um superdotado”. Hoje, aos 22 anos, viaja com a mãe pelo país, palestrando sobre o tema. “Ele quer mostrar que o superdotado não é um gênio perfeito, é alguém que pensa e sente de maneira intensa”, diz Adelita.
O diagnóstico de Matheus levou à avaliação das irmãs mais novas, Heloisa (10) e Rafaela (8), também identificadas com superdotação profunda. Assim como o irmão, enfrentaram resistência e falta de compreensão nas escolas. Hoje, compreendem seus próprios limites e praticam autorregulação emocional e sensorial.
Com os resultados, Adelita também decidiu se avaliar e descobriu que compartilha da mesma condição. “Entendi por que sempre fui tão sensível e inquieta. O que antes era dor, virou compreensão. Hoje, é propósito.”
Quando se fala em superdotação, é comum imaginar um gênio das notas altas, mas vai além: não é saber mais, é funcionar de forma diferente. O cérebro superdotado pensa rápido, conecta ideias com facilidade e sente tudo em alta intensidade.

Afinal, o que é superdotação?
Quando se fala em superdotação, é comum imaginar um gênio das notas altas, mas vai além: não é saber mais, é funcionar de forma diferente. O cérebro superdotado pensa rápido, conecta ideias com facilidade e sente tudo em alta intensidade.
Pesquisas apontam que se trata de uma neurodivergência, um modo singular de perceber e reagir ao mundo. Essas pessoas aprendem com profundidade, questionam o que não faz sentido e se frustram com ambientes rígidos e repetitivos. Para elas, o tédio não é aborrecimento, é sofrimento.
São mentes criativas, sensíveis e com forte senso de justiça, que se desenvolvem de forma assíncrona, ou seja, a idade mental é acima da idade cronológica. Por isso, a potência e vulnerabilidade caminham juntas, não no sentido de ser uma doença ou transtorno, mas devido à falta de um ambiente adequado e estimulante, que atenda suas necessidades e garanta
seu pleno desenvolvimento. O desafio não é encaixar quem pensa diferente, mas oferecer espaço para que floresça.
Projeto Super Inclusão
Da experiência pessoal nasceu o Projeto Super Inclusão, criado por Paula Moreira, sua amiga e parceira, que convidou Adelita para juntas iniciarem a jornada pela conscientização e inclusão dos superdotados, visando preencher a lacuna deixada pelas políticas educacionais. A iniciativa atua na formação de professores, assessoria jurídica a famílias e escolas, difusão científica e ativismo político. “A superdotação é uma questão de direito humano, não um privilégio. É dever do Estado garantir que essas pessoas tenham acesso à educação adequada”, afirma.
O Núcleo NEXUS, da Escola Santa Maria Goretti em Teresina (PI), identifica alunos e desenvolve planos educacionais individualizados, com enriquecimento, aceleração e trilhas personalizadas com mentoria. Oferece ainda atividades diferenciadas e coletivas, promovendo inclusão e valorizando o potencial de cada estudante.
Mais do que um projeto, o Super Inclusão é um movimento de transformação integrando educação, ciência e cidadania para inspirar uma nova compreensão da superdotação: reconhece que ser, sentir, pensar e agir diferente também é uma forma de pertencer.





0 comentários