Entre o medo de errar e o desejo de acertar, nasce a coragem de ser quem se é sem filtros, sem máscaras, com verdade.
Por Cristiane Lorenzi Teixeira | Psicóloga e Especialista em TCC
Vivemos em um tempo em que a perfeição é vendida como sinônimo de valor. As redes sociais nos mostram sorrisos editados, conquistas milimetricamente enquadradas e histórias que parecem sempre dar certo. E, nesse cenário, ser imperfeito parece quase um defeito.
Mas o que talvez a gente precise reaprender é que a imperfeição é o terreno fértil da autenticidade. É nela que nascem a coragem, a vulnerabilidade e o verdadeiro crescimento.
“A coragem de ser imperfeito é aceitar-se como um ser em processo.”
É reconhecer que o medo de errar, de não agradar, de não ser suficiente, muitas vezes nos paralisa mais do que o próprio erro. E quando o medo comanda, o melhor de nós se esconde atrás de uma performance constante de controle.
Como psicóloga e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, vejo todos os dias o peso que a autocrítica e o perfeccionismo exercem sobre as pessoas. A mente cria armadilhas sutis: “se eu falhar, serei rejeitada”; “se não for perfeita, não vão me respeitar”.
Esses pensamentos automáticos geram ansiedade, culpa e medo de se expor. Mas quanto mais tentamos parecer perfeitos, mais nos distanciamos de quem realmente somos e de quem poderia nos amar exatamente assim.
Ser imperfeito é humano. E ser humano exige coragem. Coragem para admitir limites. Coragem para dizer “não sei”, “preciso de ajuda”. Coragem para mostrar as rachaduras e entender que são nelas que a luz entra.
A autora Brené Brown diz que a coragem e a vergonha são irmãs gêmeas: não existe coragem sem o risco de sentir vergonha. E se pararmos para pensar, é exatamente isso que vivemos em silêncio: o medo de falhar, de decepcionar, de não corresponder às expectativas.
Mas há um tipo de perfeccionismo ainda mais silencioso: aquele que se disfarça de certeza. A necessidade de ter sempre razão, de saber tudo, de dominar cada resposta, muitas vezes nasce do medo de lidar com a dúvida. E é nessa rigidez que o verdadeiro aprendizado morre.
“A mente que acredita saber tudo perde a capacidade de ouvir.”
E sem escuta, não há relação nem evolução. A maturidade emocional não está em vencer debates, mas em compreender. Crescer não é acumular certezas é aprender a duvidar de si com gentileza. Afinal, a verdadeira sabedoria nasce quando aceitamos que não sabemos tudo. E está tudo bem.
Quando conseguimos flexibilizar o pensamento e olhar para nós com mais compaixão, abrimos espaço para o aprendizado real. A TCC nos ensina que não é o erro que nos define, mas a forma como pensamos sobre ele. Errar pode ser um convite a repensar estratégias, ajustar rotas e se conhecer mais profundamente.
“É no tropeço que a consciência desperta.”
Talvez o grande desafio seja trocar o “preciso ser perfeito” por “posso ser melhor, mas ainda assim digno de amor enquanto caminho.” Essa mudança de pensamento parece simples, mas é transformadora. Quando a gente se permite ser imperfeito, o amor próprio deixa de ser meta e passa a ser estado de presença.
A coragem de ser imperfeito também é um ato de libertação. Libertar-se do olhar julgador, das comparações e das exigências internas impossíveis. Libertar-se da ideia de que só é digno quem nunca erra.
Porque, no fim, a vida é feita de ensaios, não de performances impecáveis.
“Cá entre nós, talvez a verdadeira perfeição seja justamente abraçar nossas imperfeições com humanidade.”
Saber que o medo não precisa ir embora para que a coragem chegue, os dois podem coexistir. O que muda é quem assume o volante. Ser imperfeito é se permitir ser real.
E ser real em tempos de filtros e máscaras é um ato de coragem.





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