Consciência masculina: força e sensibilidade em equilíbrio

por | 21 jan, 2026 | 0 Comentários

Uma nova geração revisa o que aprendeu sobre si e redefi ne o que
significa ser masculino no século XXI

Por muito tempo, o imaginário coletivo associou masculinidade à resistência, ao silêncio e à dureza. “Homem não chora”, repetiam as gerações anteriores. Mas o que antes era sinal de força passou a pesar como armadura. 

Reportagens e pesquisas internacionais apontam que a masculinidade está se reescrevendo — das barbearias aos consultórios, das academias às rodas de conversa. Um movimento que sinaliza uma virada cultural: homens revendo padrões, buscando equilíbrio entre sucesso e bem-estar, descobrindo novas formas de se relacionar consigo e com o mundo.

A virada da saúde mental

Nos últimos anos, o tema da saúde mental masculina deixou de ser tabu para se tornar pauta urgente. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de três em cada quatro casos de suicídio no mundo envolvem homens. No Brasil, a taxa masculina é quatro vezes superior à feminina. Esses números não indicam que os homens sofram mais, mas revelam que muitos enfrentam barreiras para buscar apoio emocional.

Esse cenário, antes tratado como “crise silenciosa”, começa a gerar reação. Pesquisas indicam que 95% dos homens já reconhecem que a saúde mental é tão importante quanto a física, segundo a Men’s Health (2023). É o início de uma revolução interna em que homens passam a valorizar o cuidado emocional, a terapia, a escuta.

Nas redes, surgem movimentos globais como o The ManKind Project, que oferece retiros de autoconhecimento em mais de 20 países. Esses espaços mostram que vulnerabilidade não é fraqueza, mas um novo tipo de coragem: a coragem de se abrir.

Do espelho à essência: estética e autocuidado

Essa mudança de olhar sobre si mesmo transbordou para o corpo e para o espelho. O homem que busca equilíbrio emocional também passou a investir em bem-estar físico e na própria aparência. Segundo o Global Wellness Institute, o mercado de autocuidado masculino já ultrapassa US$ 90 bilhões e segue em expansão.

Cuidar da pele, do cabelo e do estilo deixou de ser vaidade e virou rotina. Hashtags como #mensskincare somam mais de 200 milhões de visualizações, e marcas como Dove Men+Care e Axe reformularam suas campanhas para dialogar com um público que quer ser autêntico, não perfeito.

A moda acompanha essa transformação. Cores neutras, tecidos sustentáveis e modelagens mais soltas dominam as vitrines. É o fim do “uniforme masculino”: agora, vestir-se bem significa sentir-se bem.

Paternidade consciente: a presença que transforma

No campo afetivo, a revolução masculina se reflete na paternidade. Cada vez mais homens estão se permitindo viver a experiência de ser pai de forma ativa e emocionalmente presente.

O velho modelo do “provedor distante” dá lugar ao pai que participa, escuta, conversa, erra e aprende. Para o psicólogo australiano Steve Biddulph, autor do livro Criando Meninos, “quando um homem se permite cuidar, ele ressignifica o que entende por força”.

No Brasil, essa mudança aparece nas pequenas cenas cotidianas: pais nas consultas pediátricas, nas reuniões escolares e nas licenças estendidas para acompanhar o nascimento dos filhos. Ser pai deixou de ser papel e virou presença.

Da hipermasculinidade à empatia

Essa transformação, porém, não acontece sem resistência. Enquanto há influenciadores que propagam discursos de dominação e hipermasculinidade, cresce um movimento contrário: o da masculinidade positiva, que defende colaboração e equilíbrio emocional.

Um estudo da revista Cultural Sociology (2025) analisou o impacto dessas duas narrativas e revelou: homens expostos à hipermasculinidade relataram mais isolamento e sofrimento psíquico, enquanto aqueles que cultivam o autoconhecimento apresentaram níveis maiores de satisfação e bem-estar.

Homem do Século XXI

Diante desse cenário de mudanças emocionais, comportamentais e sociais, o homem contemporâneo começa a se reconhecer em novas versões de si mesmo e torna-se plural. Pode usar cosméticos, levantar peso, meditar, trabalhar 10 horas, chorar e amar sem medo. A nova masculinidade é menos sobre “provar algo” e mais sobre sentir-se bem consigo mesmo, nos relacionamentos, na estética e na forma de existir no mundo. 

Em tempos em que se cobra autenticidade, talvez a maior revolução masculina seja esta: reconhecer que ser homem não é papel fixo, mas sim, uma jornada de autoconhecimento.


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