Aos 92 anos, a bailarina sobrevivente do Holocausto inspira pessoas na superação de traumas

por | 19 ago, 2020 | 0 Comentários

Hoje psicóloga, Edith Eva Eger tem até militares da guerra como pacientes e é autora de best-seller.

Edith Eva Eger sentiu logo aos 16 anos as dores de viver na Europa Ocidental por ser de família judia em plena Segunda Guerra Mundial. Em 1944, soldados invadiram o vilarejo em que morava, na Hungria. Ela, os pais e a irmã foram levados ao campo de concentração de Auschwitz, e o pai e a mãe assassinados na câmara de gás. A bailarina Edith foi encontrada se mexendo numa pilha de pessoas dadas como mortas, vítimas do Holocausto. Hoje, aos 92 anos, é exemplo de braveza e narra, no best-seller A Bailarina de Auschwitz, suas experiências e a superação de um dos mais letais períodos da História.

O namorado e os avós dela também morreram na guerra, e a irmã sobreviveu. A escritora e psicóloga relaciona o início de sua luta pela vida à última conversa que teve com a mãe, no caminho de Auschwitz.

“Minha mãe me abraçou e disse ‘não sabemos para onde vamos nem o que vai acontecer, mas lembre-se que ninguém pode tirar o que puseres em sua cabeça’”, lembra Edith, na conferência “O que minha mãe me disse”, da TEDx Talks.

Edith Eva Eger mora em vilarejo nos Estados unidos (Foto: Reprodução/Facebook/Dr. Edith Eger)

O Holocausto foi o genocídio de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Uma das vítimas é Anne Frank, a adolescente autora do diário mais famoso do mundo.

Em recente entrevista concedida ao Estadão, Edith defendeu que não importa a gravidade de um fato e o que esteja acontecendo, mas, sim, a maneira como as coisas são vistas e enfrentadas para a redenção e a cura.

“Não há problemas, há desafios. E não há falhas, há apenas transições”.

Considerada a “Anne Frank que não morreu”, a psicóloga enfrentou por muito tempo os sintomas de estresse pós-traumático. Depois de ter saído da guerra, em 1945, conheceu o homem com quem se casou e foi morar nos Estados Unidos, onde vive em um vilarejo na Califórnia chamado Paradise – paraíso, traduzido para o português.

Com 42 anos, a sobrevivente do Holocausto concluiu o curso de psicologia na Universidade do Texas em El Paso. Doutora em psicologia, Edith aplica, durante as sessões de terapia, o que aprendeu nos campos de concentração. Entre os pacientes, veteranos de guerra e vítimas de traumas físicos e psicológicos, inclusive militares da mesma infantaria que a libertou do campo de concentração, em 1945.

Apenas aos 50 anos Edith começou um longo processo de cura, de acordo com a biografia da autora disponível no site da editora Sextante. Ela chegou a enfrentar a culpa de ter sido uma sobrevivente em meio a tantos mortos do Holocausto e só conseguiu voltar a ser feliz e a ter compaixão após voltar Auschwitz.

E apesar de todo o sofrimento, abomina a vingança. Por onde passa, dá uma aula: o perdão sempre será libertador inclusive para que manter a juventude do corpo e da mente. É assim que vive a bailarina, dia após dia, carregando um semblante inspirador e que revela sua leveza interior.

ETERNA BAILARINA

Dona de uma mente saudável, hoje mãe, avó, e bisavó, Edith é lúcida também de corpo. Guarda na memória e arrisca nos movimentos os passos de bailarina, dança que praticou até os 16 anos.

Já no campo de concentração, teve que dançar para o médico Josef Mengele, o “Anjo da Morte” de Auschwitz. A performance: dar piruetas durante o som da valsa Danúbio Azul.

“Eu era uma boa ginasta. Já tinha dançado para o presidente da Hungria, o almirante Horsty. De novo, mantinha a cabeça fria e podia controlar tudo. Mengele deu em troca um pedaço de pão, que eu dividi com minhas amigas”, relembra a autora, na palestra do TEDx.

AS VOLTAS DO MUNDO

Em Auschwitz, os dias que pareciam não acabar se misturavam à incerteza de como seria o próximo nascer do sol. Durante o tempo em que viveu no campo de concentração, a bailarina começou a ver as coisas de uma nova maneira, sempre trabalhando a mente para manter-se viva.

“Dizia para mim ‘se sobreviver hoje, amanhã estarei livre’. Amanhã, amanhã, sempre a olhar em frente. Em vez de dizer ‘por quê?’, aprendi a dizer ‘e agora’, e a seguir’. Tinha uma enorme curiosidade que era tão poderosa que consegui prosseguir um dia de cada vez”, lembra Edith.

Além do exercício do autoconhecimento, a psicóloga reforça que a cooperação também foi um jogo para a sobrevivência ao Holocausto. Quando se tornou operária escrava num sítio, enfrentou a marcha da morte: os operários levavam tiros se parassem de trabalhar por um instante. Foi o que aconteceu com a bailarina, e as amigas com quem dividiu o pão formaram uma “cadeira” com os braços e a transportaram de lá para evitar a morte.

LIÇÕES EM UM BEST-SELLER

No livro A Bailarina de Auschwitz, a sobrevivente do Holocausto conta suas experiências no campo de concentração, a superação de traumas e faz uma reflexão de como o período despertou seu autoconhecimento e o novo jeito de viver a vida. São páginas que transbordam a sabedoria, o que tanto a psicóloga diz ser uma das maiores riquezas do ser humano.

Ter amor próprio e ser realista, mas não idealista, também são peças-chave para o quebra-cabeça que é a vida. Essas atitudes são exploradas na obra da bailarina como formas de melhorar a inteligência emocional.

 

Capa do bes-seller A Bailarina de Auschwitz

Capa do best-seller A Bailarina de Auschwitz (Foto: Editora Sextante)

 

— A Bailarina de Auschwitz está no topo de leituras sugeridas por Bill Gates, o fundador da Microsoft. No Brasil, o best-seller foi lançado em março de 2019, e um segundo livro de Edith deve estar à venda nos próximos meses. É O Presente, que apresenta experiências conceituais do trabalho da autora.

Nas páginas, a bailarina também argumenta que escolhas conscientes e o exercício do deixar de ser vítima são fundamentais para as cicatrizes emocionais serem apenas uma experiência, e não permanentes.

As vivências de Edith e sua forma de lidar com os traumas renderam a participação dela em programas de TV da rede de notícias CNN e o famoso talk show The Oprah Winfrey Show. Autora de mais livros, como uma autobiografia publicada em 2017, a psicóloga também foi a protagonista de um documentário sobre o Holocausto, exibido na Holanda, e dá palestras em todo o mundo, inspirando pessoas e levando um exemplo da vida real de que qualquer medo pode ser superado.

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