Eduardo Kobra, o artista da periferia que dá vida aos muros das principais cidades do planeta

por | 19 ago, 2020 | 0 Comentários

Obra Coexistência, pintada por Eduardo Kobra em 2020 em Itu, SP (Foto: Rebeca Reis/AGIF)

Trinova conversa com o recordista do maior painel grafitado do mundo.

Em meio à correria pelas ruas das principais cidades do mundo, difícil quem não pare para admirar as obras de Eduardo Kobra. Autodidata, o artista nascido em um bairro pobre da capital paulista deixa as marcas de seu talento em cinco continentes. Os temas são diversos, sempre com a sensibilidade de mãos que endossam a diversidade humana, as histórias e as memórias, as mazelas sociais e uma luta que devia ser de todos: a pela paz mundial. A Trinova Press conversa com Eduardo Kobra e mergulha nas obras de um dos mais influentes muralistas do mundo, que acredita no poder de transformação por meio da arte.

Nascido em 1975, filho de tapeceiro e de dona de casa, Kobra é apaixonado pelo grafite desde pequeno. As advertências recebidas por pintar na escola e as detenções por crime ambiental foram combustível para a determinação do então adolescente. Em cada toque de spray nas pichações dos muros de São Paulo, desenvolveu a delicadeza de um artista internacional.

Em 2017, foram os traços de Eduardo Kobra que formaram o maior mural grafitado do mundo: uma homenagem ao chocolate ocupa um paredão de 5.742 m² na Rodovia Castello Branco, em Itapevi, na Grande São Paulo. O recorde anterior também foi batido pelo artista um ano antes, com o quadro “Etnias” – de 2,5 mil m², pintado para celebrar os Jogos Olímpicos do Rio.

Mas antes de ter o nome registrado no Guiness World Record, o ganha-pão veio dos cartazes para cenário de brinquedos e imagens decorativas usadas em eventos de um parque de diversões. Obras que foram a porta de entrada para trabalho de Kobra com outras empresas e agências de publicidade. O entusiasta do grafite ganhou notoriedade em 2007, com o projeto Muro das Memórias, uma série de fotos antigas de São Paulo reproduzidas em diversas regiões da metrópole. A técnica estampou muros de outras cidades do mundo.

De lá para cá, o muralista criou séries de pinturas com temas como acontecimentos marcantes da humanidade, mazelas sociais e realidade das periferias, personalidades mundiais, união dos povos, paz e defesa do meio ambiente. A identidade do artista são as cores fortes e marcantes das formas geométricas que, juntas, formam as imagens. Ele já deixou sua marca registrada na Espanha, Itália, Noruega, Inglaterra, Malaui, Índia, Japão, Emirados Árabes Unidos e em diversas cidades norte-americanas.

Eduardo Kobra mora em São Paulo e tem um ateliê na cidade, onde expõe e comercializa telas.

Confira o bate-papo com o artista:

TRINOVA — Como se interessou pelo muralismo?
EDUARDO KOBRA — Foi um processo natural. Comecei com o grafite e fui mudando para o muralismo por causa das características do meu trabalho, com o tempo que se leva para criar cada um e, principalmente, por conta das autorizações e permissões do espaço público e do local em que o mural está inserido. Foi muito mais ligado a isso do que a questões técnicas e de abordagem temática. E, conforme as viagens que realizei, meu interesse pela arte mural acabou sendo despertado ao conhecer melhor os trabalhos de artistas como Candido Portinari, David Alfaro Siqueiros, Diego Rivera e Eric Grohe.

TRINOVA – O que conecta suas obras entre os continentes?
EDUARDO KOBRA – Costumo abordar muito a história dos locais, além de questões como a não-violência e o combate ao preconceito e ao racismo. O mundo é muito carente de tudo isso, e são questões que conectam as pessoas. Todos nós sabemos que elas são muito importantes, mesmo não as praticando muitas vezes.

TRINOVA – De onde vem sua inspiração para os trabalhos?
EDUARDO KOBRA – Deus é minha principal fonte de inspiração. Mas também tudo que está ao meu redor. As situações que causam incômodo, que me deixam feliz, situações de desigualdade social, de intolerância, de violência. Tudo isso me desperta a querer criar, reivindicar com meu trabalho, utilizando os muros para passar algum tipo de mensagem. A história e as memórias também me motivam demais.

TRINOVA – Quais são as dificuldades que os muralistas enfrentam?
EDUARDO KOBRA – De uma forma geral, os artistas no Brasil passam por questões de muita dificuldade financeira, de lugar para expor os trabalhos, de patrocinadores e de apoiadores. É uma dificuldade grande, mas se foi possível para mim, que vim da periferia, é possível para todos que acreditam e têm força de vontade. Eu costumo dizer que a arte pode surgir em qualquer lugar, até no mais simples possível, porque ela vem de dentro para fora.

TRINOVA – Como você começou a abordar a luta pela paz mundial?
EDUARDO KOBRA – Na passagem pelos continentes, comecei a ter contato com diferentes culturas, costumes e religiões. Isso abriu muito a minha mente para perceber como as pessoas fazem para se conectar com o criador, os esforços que elas fazem. Só que algumas pessoas infiltradas em todas essas culturas acabam promovendo a intolerância e sendo contraditórias a um propósito de Deus, que está relacionado à paz, à tolerância. Então, muitas vezes, em meus murais, falo da união dos povos, da importância da coexistência pacífica e de entender e tolerar a cultura do próximo. Também gosto de abordar questões de proteção do meio ambiente, dos animais e da conscientização para um planeta melhor.

TRINOVA – Como são quebrados os preconceitos em relação ao muralismo?
EDUARDO KOBRA – A qualidade do trabalho em si é o que quebra barreiras, e é preciso ter muita perseverança e dedicação. Nós, artistas com mais tempo de trajetória, vemos que não existe mais essa separação entre a arte feita em galerias, a que está em museus e a que está em prédios ou numa praça. Cada uma se expressa de uma forma, mas todas são conectadas e têm um diálogo com o público. Artistas que surgiram nas ruas, que passaram por discriminação ou preconceito, continuaram lutando e se esforçando. Hoje, muitos que nasceram na periferia são convidados para pintar no mundo inteiro e expõem em grandes museus e lugares tradicionais, que antes não abriam espaço para esse tipo de arte.

TRINOVA – Qual é sua obra mais marcante para você?
EDUARDO KOBRA – Todas as obras são importantes para mim, porque realizo todas com muito esforço, dedicação e coração. Para mim, não importa se estou pintando na periferia ou na Times Square. Tenho enorme carinho e consideração por todas. Mas a nível técnico e conceitual, talvez as últimas obras carreguem toda essa bagagem que adquiri ao longo dos anos.

 

Veja algumas obras de Eduardo Kobra:

 

O Beijo. Nova York, Estados Unidos (2012-2016). Retrata o beijo do marinheiro George Mendonsa e da enfermeira Greta Friedman, na vitória dos Estados Unidos contra o Japão na Segunda Guerra Mundial. Já foi considerado um dos dez pontos mais fotografados em selfies em Nova York. (Foto: José M. Alonso)

Alfred Nobel. Borås, Suécia (2014). Pintura retrata o inventor sueco Alfred Nobel, patrono do Nobel da Paz. (Foto: Nobel, Suécia – Acervo Studio)

Cristo. Tóquio, Japão (2016). Alguns símbolos do Rio de Janeiro. O artista teve permissão para pintar apenas durante as madrugadas. (Foto: Acervo Studio)

Maior painel grafitado do mundo. Itapevi, SP (2017). Faz uma homenagem ao chocolate e pode ser visto do km 35 da Rodovia Castello Branco. (Foto: Enio Godoy)

Projeto Muro das Memórias. São Paulo, SP. Série de trabalhos que fez o muralista ganhar visibilidade. São retratadas as cenas da capital da primeira metade do século XX. (Foto: Acervo Studio)

 

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