QUAL É A ÚNICA CERTEZA QUE TEMOS NA VIDA?

por | 9 abr, 2022 | 0 Comentários

OLHAR PARA A FINITUDE PODE SER UM BOM CAMINHO PARA VIVERMOS COM MAIS INTENSIDADE, APROVEITANDO O ‘DURANTE FELIZ’

Se você acha que a única certeza que temos na vida é que vamos morrer, acertou. Por isso, a médica Ana Claudia Quintana Arantes, que é geriatra e especialista em cuidados paliativos (acompanha os últimos dias de pacientes terminais), faz um alerta em seu mais recente livro: Pra Vida Toda Valer a Pena Viver, que aborda também a questão do envelhecimento: precisamos trocar o final feliz pelo durante feliz.
“É importante tomar consciência do tempo de vida. Preparar para a morte é viver. Um dia ruim, é um dia ruim. Vai passar.

Viver a vida com o que ela tem para oferecer. Pensar sobre a morte é importante para salvar sua vida como biografia. Ser livre, viver o que há para viver. O tempo vai acabar em algum momento, aproveite o que a vida está oferecendo”, destaca a médica em entrevista para a Trinova.
Em sua prática diária com pacientes terminais, ela ressalta alguns pontos comuns entre as pessoas que conseguem
ter paz nos momentos finais: “São pessoas que viveram uma vida muito legítima, não se cobraram além da conta, erraram, mas reconhecem que fizeram o seu melhor e tinham autocompaixão, sem serem muito autocríticos. O ser humano é o único animal que tem consciência de si. Mas não nascemos sabendo ser humanos. É um processo de aprendizado ao longo de toda a vida, e esse processo é potencializado pelo envelhecimento. Não queremos perder essas últimas aulas…O sucesso da vida é envelhecer. Se você envelhece é porque não morreu, é uma alternativa à morte. A vida precisa ser valorizada. Precisa ter consciência do seu tempo. A pessoa que envelhece é aquela que se prepara todos os dias para viver sua finitude”, diz.


A MORTE É UM DIA QUE VALE A PENA VIVER

Autora também dos livros: A Morte é Um Dia Que Vale a Pena Viver e Histórias Lindas de Morrer, a médica relata que
muitas pessoas evitam falar da morte.
Ana defende que a morte ensina muito sobre a vida, por isso é preciso falar. “Gostaria que as pessoas não tivessem mais tanto medo de falar da morte. Na nossa sociedade, esse tema é um tabu, como se fosse um segredo feio. Esse medo contribui para que as pessoas não tenham uma vida mais real, mais verdadeira. Se você tem medo da morte, deveria buscar entender e conversar sobre esse medo, para conseguir encará-la de outra forma. A morte, na verdade, é parte da vida, e acelera a compreensão do que realmente é importante ser vivido. A importância de conversar sobre esse tema é tomar consciência do tempo de vida. Preparar-se para a morte é viver, com seus riscos e com suas consequências”, diz.

Ela destaca ainda que não existe escolha entre morrer e não morrer, mas existe escolha entre viver bem e não viver bem, entre saber o que fazer com seu tempo ou desperdiçá-lo. “Você pode não falar da finitude, mas ainda assim haverá o fim, vai morrer, como qualquer pessoa. Isso é belíssimo: não há privilégios, não há punições: morrer é humano. Talvez o medo exista porque as pessoas têm dificuldade para falar sobre limites, sobre perdas, sobre sofrimento, que jamais será desejado, mas vai acontecer. Se você ama alguém, precisa saber perder essa pessoa, e exatamente por isso é preciso amá-la muito. Se você ama a vida, precisa viver sabendo que ela termina, e exatamente por isso é tão necessário honrar a vida, vivê-la intensamente”, afirma.

ENTRE ADOECER E MORRER HÁ MUITO O QUE FAZER

A médica lembra que, logo no início da carreira quando se especializou em cuidados paliativos, ao falar que era médica muitas pessoas vinham tirar dúvidas. Mas, bastava falar que cuidava de pessoas que estavam morrendo, as rodinhas se desfaziam e as pessoas se espalhavam para evitar falar no tema.

“Não entendia porque os pacientes eram abandonados exatamente quando a doença deles não tinha opção de tratamento e o sofrimento era absurdo. Busquei conhecimento para cuidar de pessoas no final da vida para que pudesse saber o que fazer quando todo mundo dizia que não tinha nada para fazer. Foi um movimento subversivo, quase revolucionário. E encontrei esse conhecimento nos Cuidados Paliativos, e na psicologia, por meio do estudo do processo de luto”, diz

A MORTE PODE TRAZER A CONSCIÊNCIA DA VIDA QUE VALE A PENA VIVER


Ela destaca ainda que o cuidado paliativo é o cuidado de proteção em relação ao sofrimento que a doença traz, que
o adoecimento proporciona. “A doença quando encontra um ser humano forma uma melodia única que é o sofrimento. Cada um tem seu modo de sofrer. No cuidado paliativo não estamos lutando contra a doença, estamos favorecendo a vida, na felicidade possível, na realidade possível. A doença pode seguir seu curso, e a pessoa tem permissão para a morte natural. Entre adoecer e morrer há muito o que fazer pelo bem de quem vive este processo tão delicado e sagrado em sua vida”, afirma.

EMPATIA COM OS PACIENTES
A médica destaca que para cuidar de alguém que enfrenta seus tempos finais é preciso buscar saber muito mais do que a doença que a pessoa tem.
Na faculdade de medicina geralmente só se aprende sobre a doença, mas em cuidados paliativos, ela conta que aprendeu que talvez não consiga tirar completamente o sofrimento do outro, mas o fato de acolher faz com que fique mais tranquilo de ser vivenciado.
“Você adoece pelo corpo, mas não é somente a dimensão física que sofre. Somos seres complexos, com dimensão emocional, familiar, social e espiritual que te acompanham no adoecimento físico, facilitando ou dificultando a expressão de seu sofrimento como um ser humano integral. Saber de sua história é saber do contorno de seu caminho de enfrentamento das condições limitantes de vida. Algumas vezes podemos nos surpreender, pois tem pessoas que sofreram por bobagens a vida toda, mas na hora em que tinham realmente algo grave, estabilizam, superam, transcendem o sofrimento. Outras não”, diz.
Ela destaca ainda que se fizer a pergunta para alguém: ‘como gostaria de morrer?’, a maioria das pessoas vai responder que quer morrer dormindo, de repente, sem sofrimento. “Talvez seja porque preferem viver uma vida adormecida, desconectada? Não sei…é apenas uma reflexão”, pondera.

Mas ela lembra que morrer dormindo só será uma morte abençoada quando se teve uma vida abençoada. “Isso não é o que acontece com a maioria. As pessoas não demonstram afeto, não dizem que amam, não pedem perdão, não vivem experiências de felicidade com a frequência que deveriam permitir-se viver. Então, quando você tem um diagnóstico de uma doença que ameaça a sua vida, você cai na realidade e também pode cair em si”, diz.

Ela relata ainda que muitas pessoas contam que a melhor coisa que lhes aconteceu foi o câncer, às vezes sentem-se
até culpadas de falar isso, mas a verdade é que a doença se torna uma oportunidade de uma vida com sentido. “Por que é que precisou disso? Porque foi o único jeito de permitir-se pensar na morte. Quando recebeu o resultado da biópsia percebeu que era mortal. Já era mortal antes do resultado da biópsia, mas foi naquele momento que tomou consciência disso”, diz.

Ela destaca que as pessoas que vivem um processo de finitude têm a chance de viver uma vida que consideram ter mais significado e que desejariam ter vivido a vida inteira. “Mas aí o tempo é pequeno… dias, semanas, meses são apertados para acolher a vida inteira que não foi vivida. Mas é bonito demais ver que encontram sabedoria para fazer as melhores escolhas e aproveitam muito qualquer tempo que tenham, desde que seu sofrimento seja cuidado”, conta.
A médica define ainda que a morte na verdade é parte da vida, e acelera a compreensão do que realmente é importante de ser vivido dentro dela. “A morte pode trazer a consciência da vida que vale a pena viver. Na vida humana, talvez somente a experiência de nascer possa ser tão intensa quanto o processo de morte”, diz. Vale refletir sobre o que faremos com o nosso tempo de vida até que a morte nos leve?

Dra. Ana Claudia Quintana, médica geriatra, especialista em cuidados paliativos
e autora dos livros “A Morte é Um Dia Que Vale a Pena Viver”, “Histórias Lindas de
Morrer” e “Pra vida toda valer a pena viver”.

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