Talvez você conviva com uma pessoa narcisista e nem saiba

por | 19 mar, 2020 | 0 Comentários

Deixe todos os seus pré-conceitos sobre narcisismo e psicopatia de lado e entenda a deficiência que afeta 69 milhões de pessoas no mundo.

O termo narcisista é usado comumente para definir pessoas vaidosas e egoístas. A palavra foi banalizada na sociedade e perdeu seu real significado. Acredite, uma pessoa narcisista não se resume a traços egocêntricos, nem a ficar horas se arrumando em frente ao espelho e tirar dezenas selfies por dia. O narcisismo é uma questão de saúde, muito mais complexa e nociva do que você imagina – tanto para a pessoa narcisista, quanto para aqueles que convivem.

Te explico por quê: quando falamos de uma pessoa narcisista, não estamos apenas nos referindo ao caráter, mas sim do TPN (Transtorno de Personalidade Narcisista), que é um dos vários tipos de transtornos de personalidade. Trata-se de uma condição mental em que as pessoas têm um senso inflado de sua própria importância, uma profunda necessidade de atenção e admiração excessivas, relacionamentos conturbados e falta de empatia pelos outros.

O distúrbio de personalidade narcisista afeta mais homens do que mulheres, e geralmente começa na adolescência ou no início da idade adulta. Aproximadamente 6% dos adultos no mundo sofrem desse distúrbio.

O TPN apresenta complicações potenciais em todas as vertentes da vida do narcisista, que está condicionado a ter: dificuldade nos relacionamentos; problemas no trabalho ou escola; depressão e transtorno de ansiedade; descaso com a saúde física; compulsão por drogas lícitas e ilícitas e jogos; pensamentos suicidas ou comportamento de automutilação.

Quem sofre desse transtorno tem uma grande hipersensibilidade a críticas e insultos. As pessoas narcisistas também não lidam muito bem com frustrações, nem rejeições por uma imaturidade emocional. Assim, agem com irritação, nervosismo e raiva, usando a agressividade para disfarçar a baixa autoestima.

Porém, todas essas características não são visíveis. À primeira vista, os narcisistas apresentem traços como uma grande bondade, vivacidade, um bom senso de humor, inteligência, segurança em si mesmo e uma extroversão cintilante que nunca passa despercebida. No entanto, por baixo dessa máscara brilhosa está a verdadeira pele, caracterizada pela impossibilidade de criar um vínculo emocionalmente positivo com alguém.

Em relações amorosas, o comportamento com traços de bondade se chama “bombardeio do amor”. Mas essas demonstrações não têm nada a ver com os parceiros. “O par romântico apenas está oferecendo o que o narcisista quer (sexo, dinheiro, status, juventude). Quando ele ou ela te conquistarem, o ‘amor’ se transforma em controle e denegação”, explica a terapeuta de casais Virginia Gilbert.

E qual a causa do TPN?

As causas do transtorno narcisista ainda não são exatas, mas estudos afirmam que ele é causado por uma junção de fatores genéticos, externos (meio que a pessoa nasce e é criada) e neurobiológicos (temperamento e gestão de tensão).

Um estudo já afirmou que em 64% dos casos a personalidade narcisista tem uma origem genética. Esses indivíduos narcisistas submetidos a pesquisas apresentaram menor volume de massa cinzenta na ínsula esquerda anterior, a parte do cérebro relacionada à empatia, regulação emocional, compaixão e funcionamento cognitivo.

Vale enfatizar que, embora algumas crianças possam apresentar traços narcisistas, isso pode ser simplesmente típico da idade e não significa que elas desenvolverão uma personalidade narcisista. Ser autocentrado faz parte do desenvolvimento natural da infância e essa fase do egocentrismo é superada ao longo do crescimento. Quando o narcisismo acontece, não há a superação dessa fase.

Psicopatia e narcisismo: entenda a relação

Qual a visão você tem de um psicopata? Bom, dando aqui meu palpite, acredito que você imaginou uma pessoa violenta e com a aparência insana… talvez um Maníaco do Parque.

E se eu te disser que você pode ser filho (a), ser casado (a), ter amigos (a) ou colegas de trabalho psicopatas? Isso te apavora porque associamos psicopatas com assassinos em série. Mas, assim como falei no início desse texto sobre os narcisistas, precisamos deixar o estereótipo do psicopata de lado.

Costumamos chamar psicopatas de monstros, gênios malignos ou coisas do tipo. Mas para a OMS (Organização Mundial da Saúde), eles têm uma doença, ou melhor, deficiência. O nome mais conhecido é psicopatia, mas também se usam os termos sociopatia e transtorno de personalidade anti-social.

Conforme a OMS, a psicopatia é considerada um transtorno do desenvolvimento cerebral que afeta áreas como a área ventromedial do córtex suborbitário do lobo frontal do cérebro, áreas responsáveis por sentimentos como empatia, culpa e medo. É, portanto, um defeito funcional do cérebro que não tem como ser tratado.

Uma das principais características da psicopatia é um forte traço narcisista enraizado na sua personalidade. Bingo!

Psicopatas e narcisistas sofrem do mesmo problema: uma total ausência de compaixão, nenhuma culpa pelo que fazem ou medo de serem pegos, além de inteligência acima da média e habilidade para manipular quem está em volta.

Segundo dados do Imesc (Instituto de Medicina Social e de Criminologia do Estado de São Paulo), de 1% a 3% da população tem o transtorno da psicopatia. Isso significa que uma pessoa em cada 30 poderia ser diagnosticada como psicopata. E que haveria até 69 milhões de psicopatas no mundo, sendo 6 milhões de pessoas assim só no Brasil. Dessas, poucas seriam violentas. A maioria não comete crimes, mas deixa as pessoas com quem convive desapontadas.

Não tem remorso, não tem culpa 

“Psicopatia é um transtorno de personalidade em que a pessoa não tem afeto. Ela não se afeta com o outro. As pessoas que convivem com psicopatas, seja pais, filhos ou pares românticos são apenas objetos nas mãos deles”, explicou a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do livro “Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado”. “Eles não têm sentimentos, não sofrem, não se põem no lugar do outro. São 100% razão. O psicopata é racionalmente perfeito, sabe o que faz, mas afetivamente não existe”, concluiu.

Deixa eu te dar uma explicação mais figurada: assim como daltônicos não conseguem ver cores, psicopatas são incapazes de enxergar emoções. Não as enxergam nem as sentem, pelo menos não do mesmo jeito que os outros fazem. Em vez disso, eles só teriam o que os psiquiatras chamam de proto-emoções, que são sensações de prazer, euforia e dor menos intensas que o normal.

Ana Beatriz traz outra metáfora para explicá-los: é como se os psicopatas entendessem a letra de uma canção, mas não a música. “Esse jeito asséptico de ver o mundo faz com que um psicopata consiga mentir sem ficar nervoso e sacanear os outros sem sentir culpa”, disse.

As pessoas que sofrem de psicopatia levam a vida como uma espécie de teatro para dar satisfação à sociedade. Namoram, se casam, formam famílias. Mas o objetivo é sempre atingir dominação diante de todos que estão a sua volta para garantir status e poder.

Atitudes maldosas são demonstradas pelas pessoas que sofrem do transtorno de psicopatia e narcisismo de forma gradual: vez ou outra soltam comentários sarcásticos para fazer o outro se sentir inferior e culpado. Depois, sempre se fazem de vítima e exageram na encenação pedindo desculpas, afinal, a pena é o sentimento que mais fragiliza o ser humano.

Há sempre uma provocação crescente nas relações em que há uma personalidade psicopata envolvida. Por exemplo, um psicopata no trabalho encontrará meios de subjugar um colega mais capacitado que ele, para usufruir das qualidades que ele não possui. A pessoa faz isso seduzindo, ameaçando, boicotando tarefas, fazendo se passar pelo outro, roubando ideias ou coisas. Seduz o chefe com a finalidade de desqualificar o colega. Ou seja, desenvolve a habilidade de desqualificar o outro para se sobressair. Por essas e outras, psicopatas estão, na maioria das vezes, em cargos de poder.

Existe tratamento?

Não tem como tratar a psicopatia. Para quem convive com pessoas que sofrem desse distúrbio, é importante conhecer as características do comportamento para amenizar a convivência e prevenir sofrimentos e decepções na convivência social.

Também não há uma cura para o transtorno de personalidade narcisista, mas a psicoterapia é a abordagem chave no tratamento do distúrbio. A terapia cognitivo comportamental pode ser usada para ajudar o sujeito a aprender como se relacionar melhor com os outros, a fim de estimular relacionamentos interpessoais mais funcionais e obter uma melhor compreensão de suas emoções, aceitar a responsabilidade por suas ações e aprender maneiras de interagir socialmente.

Pistas para identificar psicopatas narcisistas 

Só um psiquiatra conseguiria dar o diagnóstico certo. Mas, se alguém do seu convívio tiver esses traços, dá para suspeitar

RELACIONAMENTOS

Superficial: Não se importa com o conteúdo, e sim em como vendê-lo.

Egocêntrico: Preocupa-se apenas consigo mesmo.

Manipulador: Mente e usa as pessoas para conseguir algo.

Parasita: Quando consegue a confiança de alguém, suga até a medula.

SENTIMENTOS

Frieza: É racional e calculista, pois tem pouca atividade no sistema límbico, centro de emoções como medo, tristeza, nojo. Não reage ao ver alguém chorando e termina relacionamentos sem dar explicação.

Sem remorso: Não sente culpa. A parte responsável por isso no cérebro tem baixa atividade.

Sem empatia: Não consegue se colocar no lugar dos outros.

Irresponsável: Só se compromete com o que lhe trouxer benefícios.

ESTILO DE VIDA

Charme: Tem facilidade em lidar com as palavras e convencer pessoas vulneráveis.

Impulsivo: Tenta satisfazer suas vontades na hora.

Incapaz de planejar: Não estabelece metas de longo prazo.

Imprudente: Corre riscos e toma decisões ousadas.

Gestos grandiosos: O narcisista quer ser lembrado e aproveita qualquer chance para impressionar os outros. Por exemplo: em um jantar, ele vai pagar a conta do grupo para manter sua autoimagem inflada ou para elevar seu status.

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